Cultura: a diversidade vizinha e esquecida


*Mariza Santos Miranda

É interessante observar que a diversidade cultural tem ocupado lugar de destaque na mídia em geral. Sem dúvida alguma, ela fundamenta a riqueza civilizatória da humanidade, exatamente na era da globalização. Por outro lado, são justamente as diferentes identidades culturais que têm sido freqüentemente causas de crises e conflitos.

As idéias, as pessoas, o mundo em geral e as empresas, em particular, nunca foram tão ágeis como agora. Tal afirmação só faz "chover no molhado". Todos somos agraciados e vítimas dessa agilidade, cujos efeitos sobre nós mesmos, frágeis seres humanos, sobre nosso cotidiano e cultura, permanecem relegados a um canto ainda muito mal iluminado.

Infelizmente os fracos "spots" não nos têm permitido uma visão abrangente da dimensão cultural que nos envolve e na qual tropeçamos diariamente sem nos darmos conta. Um exemplo?

Em 1924, uma localidade perto de Campo Grande, MS, conhecida como Estação Terenos (nome herdado dos antigos donos da terra, os índios Terena) recebeu um número expressivo de estrangeiros, para a constituição da Colônia Agrícola de Terenos. Entre búlgaros, polacos e portugueses, encontravam-se 43 famílias de língua e cultura alemã, que foram alvo de nossa curiosidade e objeto de nossa Dissertação de Mestrado. A maior parte desses alemães veio diretamente da Alemanha, nos trens da antiga NOB (Noroeste do Brasil), pernoitando em Três Lagoas e Campo Grande. Receberam, através da Intendência de Campo Grande, alguma ajuda do Governo do Estado da época, interessado na formação da Colônia. Ajuda travestida em empréstimo de aparelhagem agrícola, implementos, doação de sementes e alimentos básicos.

Foram encaminhados para a Estação Terenos, núcleo que passou a se desenvolver muito com a implantação dessa tardia colônia mista. A área, dividida em lotes, cedidos aos colonos através da Hacker Gesellschaft, recebeu deles a denominação de "chácaras".

Em menos de dois anos, esses estrangeiros viram-se obrigados a aprender a língua portuguesa e os costumes da terra nova, através do convívio com os poucos moradores da região, que, por sua vez, eram atraídos pela possibilidade de comércio. Em dois anos já se auto-abasteciam de frutas, arroz, feijão, mandioca, ovos, à guisa de exemplo, o que também comercializavam no mercado de Campo Grande e Aquidauana. Não havia, portanto, mais necessidade da ajuda governamental, presente durante esse período inicial.

Os colonos que sabiam ler e escrever preocuparam-se com a formação escolar de suas crianças, promovendo a criação de salas de aulas multiseriadas, contratando, por conta e riscos próprios, professores aposentados ou pessoas que pudessem ajudá-los nessa empreitada.

Os percalços enfrentados por essas famílias que atravessaram o Atlântico, deixando para trás suas raízes e carregando consigo um balaio de sonhos e esperanças, foram inúmeros! Vieram de uma terra fria, com quatro estações definidas, para um planalto quente, úmido, com duas estações: tempo da seca e tempo das águas. Enfrentaram uma natureza agreste, pungente, rica, mas totalmente nova para eles. Viram-se diante das belezas e agruras de um cerrado. Tiveram que lidar com a solidão e um sentimento novo, saudades!

Ao longo dos anos, muitos desses membros das famílias vindas em 1924 desistiram do "sonho mato-grossense", voltando para a Alemanha ou sendo mesmo absorvidos por outras colônias de São Paulo ou do Sul do país. Outros viram-se tão integrados que chegaram a "perder" muito de sua origem, inclusive o hábito de falar alemão em casa. Hoje, encontram-se espalhados por Campo Grande, Terenos e Dourados, cidades sul-mato-grossenses.

Essa diversidade e riqueza cultural que esteve e continua ali, tão próxima de nós, é desconhecida da maioria. Ainda temos em Terenos resquícios vivos desse passado próximo: prédios que serviram de sede para a colônia Agrícola, de escola para os filhos dos primeiros colonos, toda uma riqueza arquitetônica e cultural abandonada e desprezada por total falta de informação. Lá estão, igualmente esquecidas, a belíssima planta da Colônia, a primeira casa comercial erguida,a estação de ferro e tantas coisas mais que poderiam ser fonte de lucro para o Município, se aproveitadas devidamente.

Esse grupo que se formou e progrediu rapidamente, embora não vivesse ainda a era da globalização, trocava cobras venenosas por soro antiofídico com o recém criado Instituto Butantã, em São Paulo. Muitos representantes da Colônia participaram de um dos primeiros movimentos divisionistas do Estado, como atestam documentos pesquisados por nós.

Nesse caso, as diferentes identidades culturais não foram alvo de crises e conflitos: conviveram calma e harmoniosamente, como nos reportam os descendentes, antigos moradores da Colônia.

Apesar de vivermos um momento extremamente ágil e imediatista, que bom seria se pudéssemos continuar a reconstrução e manutenção da memória do Estado de Mato Grosso do Sul, enquanto ela pode ser relatada por aqueles que a vivenciaram.



*Mariza Santos Miranda é mestre em Educação, reside em Campo Grande, MS, e desenvolve trabalho sobre a Presença Alemã em Mato Grosso do Sul.
E-mail: papaya@terra.com.br