O NATIVO – O TEMOR DOS IMIGRANTES ALEMÃES

 

* Valdomiro Sipp

 

Há 40 anos ainda imaginava-se na Europa, especialmente na Alemanha, país onde passei um bom tempo da minha vida, que o Brasil era formado, principalmente, por pessoas nativas e por negros. Em certo tempo, na Europa imaginava-se que o Brasil era apenas o futebol e o Pelé.

A colonização alemã, no século XIX, ocorreu a partir de 1824 no Rio Grande do Sul, e, em 1856 na minha região, então denominada de Colônia de Santa Maria da Soledade. Faziam parte desta colônia áreas de terras hoje pertencentes aos municípios de São Vendelino, Barão e Carlos Barbosa.

Entre os imigrantes daquela época reinava um certo temor, não apenas dos animais ferozes (cobras, tigres, onças e outros animais que habitavam essas terras), mas sim com relação aos nativos (bugres ou índios). Contudo, isso não desestimulava os alemães que aqui chegaram com o firme de desejo de ter um pedaço de terra num paraíso. Aqui estavam num país onde a natureza fornecia o sustento das famílias sem muito esforço e imaginavam o controle e o domínio absoluto.

Vários incidentes foram registrados entre imigrantes alemães e nativos. Os germânicos lutaram pelo direito das terras prometidas pelo governo imperial, enquanto os nativos sentiram-se lesados, uma vez que eles foram os ocupantes naturais destas terras. Assim, os índios invadiram as propriedades dos imigrantes, roubaram seus produtos, seqüestraram famílias e mataram alemães. Um desses casos ocorreu com o colono Nicolau Rempel, no ano de 1857, em Picada Feliz.

Depósitos de restos humanos foram encontrados nas ocas dos bugres, como testemunhou o colono Johann Welchen, de Picada Feliz. Outro fato muito chocante aconteceu em 1868 com a família de Lamberto Versteg, que foi raptada pelos nativos da tribo Caingangue. O fato foi planejado pelo supostamente civilizado Luís Antônio, conhecido pelos brancos como Luís Bugre, apelido que ele detestava e o que o levou a vingar-se dos imigrantes alemães.

Luís Bugre foi pego pelos brancos em 1848, em Picada Feliz, durante uma emboscada e quando os índios invadiram uma propriedade agrícola. Os agricultores estavam armados e enfrentaram os nativos com o uso de armas de fogo. Muitos dos índios fugiram, mas um pequeno, com apenas 12 anos, estava machucado e não conseguiu acompanhar o grupo. Os colonos imigrantes, em sua maioria alemães, entregaram o pequeno índio ao colono Mathias Rodrigues da Fonseca, de origem portuguesa, mas que cultivava a cultura e os costumes alemães. Luís Bugre não gostou dessa atitude e a sua decisão de seqüestrar a família Versteg foi uma forma de manifestar a sua revolta e inconformidade com relação aos imigrantes.

O fato citado aconteceu na região de São Vendelino e Carlos Barbosa. O episódio atemorizou os colonos por um longo tempo. Espalhou medo e preocupações entre eles e muitas famílias e educadores criaram os seus filhos criando neles uma imagem negativa em torno das ações de Luís Bugre. Isso gerou um forte medo, mas foi uma forma de educar e manter a juventude firme aos costumes mais antigos, importados com os imigrantes. A história completa deste acontecimento é contada no livro “As Vítimas do Bugre”, de Valdomiro Sipp.

 

 

(*) Professor/pesquisador

 

 

Revisão: Luis Fernando John (jornalista – reg. prof. 10244)