PRESENÇA ALEMÃ NA LITERATURA BRASILEIRA

 

*Luís Augusto Fischer

 

         Como qualquer coisa na vida, também esta depende do ângulo de observação: para saber da presença alemã na literatura brasileira é preciso saber se queremos averiguar a presença de personagens oriundas da imigração, se preferimos adotar o critério da autoria do livro por indivíduo de origem germânica, se caminhamos em direção mais genérica que acolha toda e qualquer referência. Sabendo que a imigração regular começou há 180 anos, será esperável que tenhamos profusão de dados, em qualquer das alternativas.

         Mas nem tanto. Na verdade, a primeira referência consistente a alemães acontece no romance Canaã, de Graça Aranha, editado em 1902; nele, dois sujeitos empenham-se em discutir um dos temas-chave para um país de migrantes como o Brasil – a difícil questão da manutenção da identidade, em todos os níveis, que se opõe à miscigenação, caminho que parece ser a regra da sociedade brasileira. Antes dessa data, apenas alguma menção poderá ser detectada, mas sem relevância. Por quê? Creio que se explicará tal demora em parte pela posição geográfica: o grosso da imigração alemã encaminhou-se para o Rio Grande do Sul, província remota do Brasil, que em seu conjunto tem relação mais ou menos problemática com o centro do país (lembremos da Guerra dos Farrapos, episódio de guerra civil, que durou dez anos e opôs parte substantiva da sociedade sul-rio-grandense ao governo brasileiro). Por outro lado, pode-se aventar o grande abismo da diferença lingüística entre o alemão e o português, diferença que no caso dos italianos é consideravelmente menor. Por outro lado ainda, é de lembrar que uma parte importante dos imigrantes alemães professava religião luterana, o que implicava, enquanto durou o Império (até 1889, portanto), uma restrição à cidadania e, certamente, à integração cultural, com poucas exceções (como a de jornalistas alemães de atuação importante no Brasil, a exemplo de Koseritz).

         Assim, a data de 1902 faz sentido, e pode-se dizer que de fato inaugura a presença alemã na literatura brasileira. Presença que fica mais evidente a partir dos anos de 1930. Vianna Moog terá sido um dos primeiros a centralizar o problema, em sua novela Um rio imita o Reno (1939), que aborda o tema dos limites da integração cultural de teutodescendentes com os brasileiros, numa cidade imaginária, Blumental. Na mesma geração, Erico Verissimo apresenta alguns traços da chegada alemã no Sul, em seu romance histórico O tempo e o vento, publicado a partir de 1949. Pelo menos um poeta e grande crítico literário de origem alemã alcança projeção nacional na mesma época: Augusto Meyer.

         Nos anos de 1970, surgirá um romance histórico muito significativo no tema. Trata-se de A ferro e fogo, de Josué Guimarães, que relata o lento enraizamento dos colonos sulinos na terra brasileira. O autor queria completar sua obra com um terceiro volume, que não chegou a escrever, volume que abordaria o episódio dos Mucker, dramática experiência ocorrida no seio da comunidade teuta. Anos mais tarde, Luiz Antônio de Assis Brasil tomou o tema a sério, escrevendo sobre ele o romance Videiras de cristal.

         Nos últimos 30 anos, muitos bons escritores têm se apresentado neste cenário. Lya Luft não discute explicitamente as coisas germânicas, mas em sua ficção pode-se perceber uma reflexão profunda sobre esta herança. Para o mundo agrário, Charles Kiefer parece ser o mais pertinaz dos escritores atuais. Ao lado deles, deve-se lembrar nomes como o poeta Paulo Becker, o criativo Luiz Sérgio Metz, o romancista Roberto Velloso Eifler, Nilson Luiz May, Valeska de Assis, Fernando Neubarth. Todos eles dando seqüência a esta tarefa civilizatória que é transformar em literatura a experiência da vida.

 

*Luís Augusto Fischer é professor da UFRGS.