Imigrantes alemães e a nova pátria:

Alemães na Guerra do Paraguai

 

Arthur Bl. Rambo*

 

Desde que os imigrantes  alemães começaram a chegar para o Sul do Brasil em 1824, não houve nenhum acontecimento de natureza militar de alguma importância, em que não se tivessem envolvido direta ou indiretamente. Foi assim na guerra  pela Província  Cisplatina, na Guerra dos Farrapos e na Guerra contra Rosas. A Guerra do Paraguai não seria uma exceção.  Solano Lopes ocupara a província argentina de Corrientes, invadira o Rio Grande do Sul e fortificara-se em Uruguaiana, São Borja e Itaqui. Diante desta situação extremamente crítica, uma reunião na “Sociedade Germânia” de Porto Alegre registrou em ata sua preocupação perante a seriedade dos acontecimentos, e os sócios reunidos ofereceram-se ao governo para participar da resistência.

 

A disposição de  defender a nova pátria não ficou apenas nas boas intenções. Pode-se afirmar, sem medo de exagerar, que não houve picada da então Colônia Alemã, da qual não tivesse partido um bom contingente de combatentes para o cenário da guerra. Um número considerável deles morreu nos combates, outros retornaram mutilados ou sofrendo, de alguma maneira, por toda a vida, as conseqüências da guerra. Os colonos alemães participavam intensamente do vai-vém das tropas que vinham da frente de combate, trazendo feridos ou doentes e abastecendo as tropas de reposição que seguiam para a frente de combate. Passaram para a história conhecidos  como os “Voluntários da Pátria”. O termo “voluntário”, entretanto, não deve ser entendido no seu sentido rigoroso. Tratava-se de voluntários em termos, porque as linhas e picadas coloniais costumavam ser percorridas constantemente por aliciadores. Seus métodos não se limitavam a arregimentar voluntários no sentido verdadeiro do termo. Valiam-se dos constrangimentos mais diversos ou  forçavam pura e simplesmente os rapazes a se incorporar nas tropas, pois seu interesse maior era o próprio bolso e não a pátria.  Aliciadores houve que, como o conde austríaco von Schlabrendorf,  pagaram com a vida a ousadia e a truculência  utilizada nos recrutamentos.

 

Na Guerra do Paraguai, um bom número dos legionários contratados para combater Rosas no início da década de 1850, conhecidos como “Brummer”, voltou ao antigo ofício da guerra. Chegaram a formar uma bateria  comandada pelo major Schneider. Integravam-na  nomes como  Bier, Reisswitz, Schimmelpfennig, Mächtig, Zendler e outros.

 


 

Os alemães e a nova pátria:

1893   -   1914-1918   -   1923

 
Arthur Bl. Rambo*

 

1893 – O envolvimento dos imigrantes alemães e seus descendentes na Revolução Federalista aconteceu de várias formas. Foi no vale do Taquari onde os efeitos da revolução se fizeram sentir mais drasticamente. Embora a grande maioria permanecesse  do lado dos legalistas um número considerável de alemães aderiu aos maragatos. Um determinado coronel Altenhofen comandou bandos de revolucionários na região de Estrela. Além das pilhagens e degolas costumeiras, ocorreram verdadeiros combates entre os maragatos e os grupos de auto-defesa, organizados pelos  colonos. Comandados por José Diehl, 50 moradores de Santa Clara repeliram cerca de 400 maragatos, comandados por Zeca Ferreira, no dia 28 de maio de 1895. Depois do término da Revolução, formaram-se bandos de salteadores que  infernizaram a vida das comunidades de alemães e italianos localizadas nas cabeceiras dos rios Caí e Sinos.

 

1914 – 1918  -  A primeira Guerra Mundial significou a ocasião em que  os imigrantes alemães e seus descendentes experimentaram pela primeira vez a hostilidade aberta e generalizada da parte da população luso- brasileira e a desconfiança de grande parte das autoridades. O clima tornou-se ainda mais hostil depois da declaração de guerra do Brasil à Alemanha. Não tardaram medidas de intervenção nas sociedades, associações, clubes, escolas, imprensa e no uso da língua alemã no dia a dia. Terminada a guerra, a normalidade foi retomada, mas o aviso estava dado: é preciso enveredar pelo caminho de uma inserção mais rápida e mais efetiva na sociedade nacional.

 

1923 – Neste ano um novo surto revolucionário veio a perturbar a vida do Rio Grande do Sul. Os acontecimentos bélicos mais importantes ocorreram na Campanha e na Serra. Com isto, a situação dos colonos, que se haviam fixado naquela região, tornou-se muito difícil. Os bandos de revolucionários que incluíam, ao lado de tropas razoavelmente disciplinadas, hordas mais interessadas em pilhar, matar e roubar, arrasavam as colônias. Os colonos organizaram-se novamente em grupos de auto-defesa, de modo especial na região de Cerro Largo, e tiveram  a  legitimidade  homologada  pela Presidência do Estado que  inclusive lhes forneceu armamento. Sua contribuição foi decisiva no bloqueio da passagem dos revoltosos para a margem esquerda do rio Ijuí.

 


Os alemães e a nova pátria:

1933 – 1945

Arthur Bl. Rambo*

 

No período dos doze anos aqui considerados, os imigrantes alemães  e seus descendentes, foram submetidos à prova definitiva de sua opção pela nova pátria.  Durante a  primeira Guerra Mundial foram emitidos sinais inequívocos que a inserção no todo da nacionalidade não poderia permanecer indefinidamente restrita à cidadania formal de que gozavam pelo simples fato de terem nascido no Brasil e de cumprirem com lealdade os deveres cívicos. Exigia-se algo mais existencial. O movimento que tomou corpo a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, acrescentou  contornos mais precisos aos rumos que  o País estava tomando no tocante à edificação de sua nacionalidade. Termos como “brasilidade”, “abrasileiramento”, “cultura nacional”, “alienígena”, sinalizavam nitidamente que estava em questão, em primeiro lugar, a valorização de tudo que era nacional e, em segundo lugar, o projeto de um Estado Nacional centralizado, o mais homogêneo possível, coeso em torno da tradição luso-brasileira.

 

Nesta perspectiva, apontava-se para   os  descendentes dos alemães que chegara a hora de assumir a “brasilidade” com todas as suas conseqüências, de “abrasileirar-se”, de deixar de ser “alienígenas”. Quando o Estado Novo foi implantado em 1937 e com ele a Campanha de Nacionalização, a inserção dos alemães na comunidade nacional, incluindo o abandono da língua, das tradições, do passado cultural, enfim, a identidade étnica, sobreveio um período traumático de oito anos, subvertendo as regras mais elementares que costumam comandar o processo normal de uma aculturação. As escolas étnicas e ou confessionais foram fechadas, a língua alemã proibida, toda e qualquer publicação em língua estrangeira proscrita. A polícia foi posta nas ruas para fazer cumprir a qualquer preço as determinações. Houve prisões, violação dos lares, confinamentos, maus tratos, ao mesmo tempo em que todo aquele que  se identificasse pelo sotaque ou pelo sobrenome, corria o risco de passar por traidor em potencial. Foram anos de chumbo para os assim chamados alemães. Eles se fecharam sobre si mesmos, recolheram-se às suas comunidades e seus lares. Privados de todos os veículos de realimentação da identidade passaram  por um processo de deculturação e de traumatização, que levaria décadas para ser superado.  Restabelecida a normalidade em fins de 1945, encontramos um cidadão brasileiro de origem alemã perplexo sem saber bem que rumo  buscar.


 

Os alemães e a nova pátria:

a fase obscura do pós-guerra

Arthur Bl. Rambo*

 

Em vez de falar em fase obscura talvez fosse mais acertado falar em fase de redefinição. A Segunda Guerra Mundial e a Campanha de Nacionalização tiveram um impacto de proporções difíceis de avaliar. Da guerra emergiu um mundo profundamente transformado, e a Campanha de Nacionalização abalara pela base a situação dos teuto-brasileiros.  Privados dos instrumentos de atualização da identidade, como as escolas, a imprensa, as associações, viram-se frente ao desafio de encontrar um caminho, o menos traumático possível, para realizarem a sua integração definitiva e existencial na sociedade nacional brasileira.

 

Uma minoria, composta, porém, por lideranças muito fortes, fez um esforço enorme para retomar uma situação a mais próxima possível daquela de antes da Campanha de Nacionalização e da Segunda Guerra Mundial, na década de 1930. Lograram  fazer circular novamente alguns jornais e periódicos, retomaram as atividades em organizações culturais, associações, clubes e sociedades  recreativas. Os esforços para retomar a escola comunitária foram frustrados. O avanço do processo de urbanização eliminou rapidamente o isolamento entre as comunidades coloniais e o mundo urbano. As novas gerações foram aprendendo a língua do País na escola e serviam-se dela no convívio social. Num clima de liberdade e de igualdade de condições de competição por um lugar na sociedade, os descendentes dos imigrantes alemães foram-se “abrasileirando” ao natural. Quando no final da década de 1950 as lideranças que batalhavam pela preservação da identidade dos antepassados, de modo especial a língua, saíram de cena, as novas gerações já não alimentavam nenhuma dúvida: assumiam-se como brasileiros no sentido completo do termo. Esta convicção não os impediu, mesmo 180 anos depois da chegada dos primeiros imigrantes,  de cultivar com entusiasmo a memória dos antepassados. Mas parece que o tempo não está longe em que os descendentes dos imigrantes alemães serão cidadãos brasileiros, cuja ascendência remota será notada apenas pelo sobrenome, e não pela língua que falam e o sotaque que os trai.

 



*  Professor do Programa de Pós-Graduação em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.

*  Professor do Programa de Pós-Graduação em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.

*  Professor do Programa de Pós-Graduação em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.

*  Professor do Programa de Pós-Graduação em História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.