A criação da Colônia Alemã de São Leopoldo

 

                                              Prof. Dr. Marcos Justo Tramontini

 

Uma parcela significativa dos trabalhos sobre o projeto imperial de imigração e colonização segue uma lógica que estabelece cortes específicos segundo os objetivos dos principais agentes promotores do mesmo, D. João VI, D. Pedro I, D. Leopoldina, José Bonifácio ou Schaeffer, localizando, ora em um, ora em outro, aspectos ou objetivos específicos, que vão do branqueamento e do desenvolvimento da agricultura e do artesanato, à ocupação do Brasil meridional. Acreditamos que devemos nos preocupar mais com a dinâmica do processo de colonização, incluindo aí o estudo dos arranjos argumentativos a favor e contra dentro da vida política  imperial. Assim, poderíamos enumerar uma série de interesses e objetivos que foram antes e durante a implementação desse projeto cogitados e pretendidos, como de instaurar uma agricultura de subsistência subsidiária a de exportação, explorada por homens livres e sob o regime da pequena propriedade; aumentar a população do país a fim de favorecer a implantação da indústria, do comércio, etc.;  formar um exército capaz de garantir a segurança interna e servir à política expansionista nas províncias cisplatinas; preparar a abolição do tráfico de escravos; ou de criar uma classe média. Desta forma, objetivos como criação de uma nova classe média livre, branca e pequeno proprietária, que desenvolvesse a policultura e o artesanato, povoasse áreas em litígio (fronteiras internacionais ou de penetração no sertão) e que fosse capaz de abastecer centros populacionais importantes e formar batalhões estrangeiros, devem ser vistos a partir da dinâmica política do jovem império. Podemos, deste modo, localizar no jogo político após 1822 um interesse maior em aliciar soldados do que agricultores, visando garantir militarmente a independência e a Coroa. Objetivo que encontra oposição numa Europa liderada pela Santa Aliança. Desta forma, o recrutador do Império brasileiro, Schaeffer, realizaria esta função de maneira “secreta” mascarando-se como agenciador de agricultores. 

Por outro lado, não podemos reduzir a colonização a um mero desdobramento estratégico no esforço de recrutar mercenários para a defesa do trono de D. Pedro I, uma vez que desde o período de D. João VI existia o interesse de trazer e estimular a vinda agricultores e artesãos europeus para o Brasil. Assim, mesmo não sendo um objetivo prioritário, a colonização igualmente se colocava como um elemento na estratégia  de governo do primeiro imperador. As terras da Real Feitoria do Linho Cânhamo se colocavam como ideais para a efetivação desse projeto, dando origem à Colônia Alemã de São Leopoldo.