PRIMEIRO ENCONTRO DAS COMUNIDADES ALEMÃS DA AMÉRICA DO SUL E MÉXICO



* Jorge Wolfgang Globig

Por iniciativa da PRO URUGUAY, entidade de direito privado, foi organizado o encontro, visando reunir integrantes das comunidades alemãs dos diversos países latino-americanos, discutindo a sua história, a sua importância para o desenvolvimento econômico e social dos países, a situação atual e as perspectivas futuras.O Governo do Uruguai declarou o evento de "interesse nacional" e a Embaixada da República Federal da Alemanha no Uruguai apoiou a iniciativa de PRO URUGUAY.

Após a realização anterior de encontros similares de britânicos e italianos, o Encontro das Comunidades Alemães realizou-se no auditório do Hotel Radisson, no centro de Montevidéu, capital do Uruguai, nos dias 7 a 9 de novembro de 2003.

Com pontualidade germânica, as 14 h do dia 7 de novembro ocorreu a abertura do Encontro, com a execução dos hinos nacionais do Uruguai e Alemanha, seguido da saudação em espanhol do Sr. Pietro Sandri Poli, Diretor da PRO URUGUAY, seguido da tradução ao alemão por Jorge Wolfgang Globig, que, como Presidente da FECAB - Federação dos Centros de Cultura Alemã no Brasil (Verband der Deutsch-Brasilianischen Kulturvereinigungen) também apresentou em nome de sua instituição uma saudação em alemão e português. Finalizando as solenidades de abertura o Dr. Michael Richtsteig, Conselheiro da Embaixada Alemã, saudou os presentes em alemão, realçando a importância do evento, que recebeu pleno apoio da Embaixada.

A seguir verificou-se o início das palestras, apresentados em espanhol ou português, iniciando o Padre Otto Bernd, Capelão da Comunidade Católica Alemã no Uruguai, sobre os aspectos da imigração alemã no Uruguai; seguindo o Sr. Rodolfo Hepe. Vice-Presidente da FAAG - Federação das Associações Argentino Germanas (Verband der Deutsch-Argentinischen Vereinigungen), de Buenos Aires, sobre a importância da imigração alemã para a Argentina. Jorge W. Globig, Presidente da FECAB, de Porto Alegre, tratou dos Chefes de Estado latinoamericanos de origem alemã; Professora Diana Millies, do Colégio Peruano-Alemão Alexander von Humboldt, de Lima, sobre os 150 anos de presença alemã no Peru; Jornalista Ursula Dormien, Redatora Chefe do Semanário Brasil-Post, de São Paulo, uma abrangente história da imprensa alemã no Brasil, em todos os estados brasileiros. O encerramento no primeiro dia foi as 18 horas.

No segundo dia, a jornada iniciou as 8h30m, concluindo as 18h, com intervalo das 12h30m as 14h para almoço. Teve início com o Sr. Klaus Mill von Metzen, da Sociedade Cultural Alemã de Paysandu, sobre as colônias alemães no norte do Uruguai, na qual se evidenciou também a participação de imigrantes alemães oriundos do Rio Grande do Sul; o Dr. Jakob Warketin, da comunidade menonita e escola alemã no Chaco Paraguaio, abordando os colonos alemães no Paraguai e sua influência na cultura e desenvolvimento rural, com ênfase aos menonitas, mas também das outras duas correntes alemães no seu país, os imigrantes diretos da Alemanha, Áustria e Suíça e os teuto-brasileiros, cada uma das três correntes com características próprias. O Sr. José Garreis, da Associação Argentina dos Descendentes de Alemães do Volga, relatando a história deste segmento alemão, via Rússia no rio Volga, e sua dramática saída de lá (semelhante ao dos menonitas) para a Argentina, onde formam a maior comunidade teuta. O Sr. Dirk Brinkmann,

Diretor do Instituto Martius-Staden, de São Paulo, abordou o passado e o presente do maior centro da memória alemã no Brasil, enfatizando o que o Instituto pode disponibilizar aos usuários. O Empresário Otto Schneewind, da Câmara Equatoriana-Alemã de Indústria e Comércio, de Quito, tratou sobre os alemães no Equador, e o Pastor Hermann Woelke Regehr, da Congregação Evangélica Menonita de Montevidéu, sobre a influência da comunidade menonita no Uruguai. O Sr. Juan Schulz, da Associação Cultural Germano-Argentina de Bariloche, relatou sobre a imigração alemã na região de Bariloche (que iniciou em fins do século XIX por colonos teuto-chilenos), bem como sobre sua Associação e o Colégio Alemão de Bariloche; o Dr. Jorge Ernesto Weil, da Universidade Austral de Valdívia, abordou a imigração alemã no Chile no período de 1849-1860, mas com considerações até a atualidade; seguido pelo Historiador Guillermo Godbersen, da Associação Cultural Peruana-Alemã "Leopoldo Krause", de Callao, com resumo de livros sobre a imigração alemã no Peru e ênfase sobre a colônia austríaca-alemã de Pozuzo, nos Andes; concluindo o dia a Professora e Escritora Mônica Gloria Hoss de le Comte sobre os jesuítas alemães na Argentina, praticamente uma história comum à região das Missões (Argentina, Brasil e Paraguai)

No terceiro dia iniciou as 9h com a Sra. Sonia Kirchheimer, da Nova Congregação Israelita de Montevidéu, sobre a imigração judaico-alemã ao Uruguai; a Historiadora Marina Helena Silva, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, sobre a importância da Bahia no processo da imigração alemã no Brasil, ressaltando que a primeira colônia alemã no Brasil estabeleceu-se em Leopoldina no ano de 1818, embora sem sucesso, alem de que já com a esquadra de Pedro Álvares Cabral o Mestre João (Meister Johann), a serviço de Portugal, foi o primeiro alemão a pisar em território brasileiro, na Bahia. O Sr. Leopoldo Jahn Montauban, da Associação Cultural Humboldt, de Caracas, abordou os alemães na Venezuela e suas comunidades, com ênfase a Tovar, e a menção dos governadores alemães na época colonial, da Casa dos Welser, que governaram a região por concessão do Rei da Espanha. Mencionou também a expressão do Libertador Bolívar sobre o cientista alemão Alexander von Humboldt: "Humboldt fez mais para a região do que todos os Conquistadores". Seguiu o Sr. Rolf Fiebig, Presidente da LCA - Liga Chilena Alemã (Deutsch Chilenischer Bund - DCB), de Santiago, com a história da colonização alemã no Chile e as diversas instituições alemães no país. O Professor Diego Marcelo Lascano, Montevidéu, apresentou, com fartas ilustrações, o tema "náufragos alemães no fim do mundo", a epopéia dos barcos de guerra alemães afundados na Primeira Guerra Mundial na costa do Chile, e na Segunda Guerra Mundial no litoral do Uruguai e Argentina, com internação dos marinheiros nos respectivos países, tendo formado uma imigração "sui generis". Finalizou a Historiadora Maria Cecília Gallero de Urfer, Argentina, sobre a imigração e colonização alemã na Província de Misiones, onde novamente aflorou a imigração por teuto-brasileiros. Ao término das palestras do Encontro, ainda o Sr. Wolfgang Hans Collischonn, de Lajeado, da diretoria da Associação Nacional dos Pesquisadores de História das Comunidades Teuto-Brasileiras, fez uma comunicação sobre a instituição, ressaltando a pesquisa a nível local. Encerrado o Encontro as 14h, a seguir os palestrantes e outros participantes reuniram-se com o Sr. Pietro Sandri Poli, da PRO URUGUAY, para uma avaliação geral do evento. O Sr. Poli manifestou a sua satisfação pelo êxito do nível do encontro, que atendeu ao seu objetivo básico, em função da qualidade dos palestrantes, lamentando tão somente o baixo índice de participantes. As palestras serão publicadas em livro sobre o Encontro. Indagado por palestrante, reiterou que PRO URUGUAY é uma entidade empresarial privada, que não recebe recursos financeiros governamentais e sob o ponto de vista financeiro, o ciclo dos três eventos (britânico, italiano e alemão) foi de aspecto negativo.

As manifestações dos palestrantes foram uniformes em elogiar o nível do Encontro, que deveria ter continuidade. Especialmente foi ressaltado de o Sr. Pietro Sandri Poli, brasileiro, residindo há poucos anos no Uruguai, não sendo de origem alemã, portanto sem ligações diretas com a cultura teuta, ter concebido e organizado um evento desta magnitude e importância para as comunidades alemães nos diferentes países sulamericanos, o que, porém, lhe permitiu agir com extrema neutralidade.

Sobre a continuidade do Encontro, uma opinião unânime, os próximos deverão ocorrer sempre em países diferentes. Para o Segundo Encontro em 2004 aventaram-se as candidaturas do Brasil (em dois lugares, Porto Alegre - pelos 180 anos da imigração alemã no Brasil - e Blumenau - por ser uma cidade símbolo da imigração alemã conhecida em todo mundo, mas ambas com respaldo da FECAB, conforme externado pelo seu Presidente) e do Chile, especificamente Osorno, considerando que a Escola Alemã daquela cidade comemorará os seus 150 anos de existência, sendo considerada a escola alemã mais antiga no mundo fora dos territórios dos países de fala alemã na Europa.

A escolhas recaiu sobre Osorno no Chile, tendo o Presidente da Liga Chileno Alemã manifestado sua intenção de tratar da proposta na reunião de sua diretoria e contactar na região de Osorno. Ainda o Prof. Jorge Weil, da Universidade Austral de Valdívia, referiu-se que intentará junto ao Reitor de sua Universidade sobre uma possível colaboração institucional. No próximo evento também deverão ser tratados os aspectos da Alemanha moderna e seus reflexos para as nossas comunidades. A decisão também foi no sentido de que nas próximas realizações dos Encontros deverá o Sr. Pietro Sandri Poli e PRO URUGUAY permanecer plenamente integrado, tanto pelos seus conhecimentos e capacidade, como também representando um reconhecimento pleno dos teuto-latinoamericanos por seu trabalho de idealizador do evento.

Outra sugestão foi a de que PRO URUGUAY viabilizasse uma lista dos endereços eletrônicos dos envolvidos no Encontro, e assim as diversas comunidades, através de suas instituições, informarem a todos sobre eventos nacionais e regionais ligados a cultura alemã em seus países, permitindo que dentro das possibilidades e interesses ocorram participações de residentes em outros países.

Em uma análise final, cabe dizer que o evento foi de extrema importância e oportunidade, no sentido de aproximar as diversas comunidades e instituições de origem alemã nos diversos países latinoamericanos , reforçado pelo processo de globalização, também no aspecto cultural, e, em especial, no Mercosul em nosso subcontinente. É certo que já existem relações esporádicas entre instituições dos diversos países. Dado o seu nível espera-se, e assim desejamos incentivar, que nos próximos Encontros venham a ocorrer uma maior participação, em nosso caso, de teuto-brasileiros. O primeiro Encontro talvez representou ´para muitos uma incógnita, inclusive sobre a organização PRO URUGUAY, não só no Brasil como nos demais países. Para a FECAB, em suas pesquisas e encontros prévios, conforme mencionado em sua correspondência a associados e interessados, não havia dúvida sobre o interesse do Encontro e da seriedade da instituição promotora, uma vez que havíamos trocado, inclusive, a realização de nosso Congresso Nacional da FECAB pelo Primeiro Encontro das Comunidades Alemães da América do Sul e México. O custo, ou investimento, seguramente será amplamente compensado, tanto em termos pessoais como comunitários, pela troca de experiências e conhecimentos a serem adquiridos, e aproximação com pessoas de origem alemã dos outros países da América Latina.

* Presidente FECAB - Federação dos Centros de Cultura Alemã no Brasil